Comentário Filipa Montalvo:"Superprotecção das crianças em zonas de recreio"

25.11.2015

PARTE II

 

Acredito que para alguns estas minhas abordagens soem mais a algo saído da cartola de um Pedo-Psicólogo ou Sociólogo, do que propriamente de um Arquitecto Paisagista. No entanto, acredito que se comprove que é por experiênciação que se aprende e desenvolvem determinadas capacidades.

 

Pela minha experiência profissional e pessoal, tem-me sido importante ter este tipo de abordagem.

 

Passados tantos anos desde a infância, reaprendi a brincar, para perceber como brincam também as crianças. No fundo, tentei perceber o que as motiva, o que lhes desperta os sentidos, quais os seus mecanismos de defesa, com o que se emocionam, a que são eles, pequenos seres humanos, mais sensíveis. Creio que estes pequenos/grandes pormenores permitem uma melhor intrusão no seu mundo, bem como algum grau de preparação/sensibilidade na hora de projectar.

 

Existe, da parte das crianças, uma necessidade de voltar a ter brincadeiras básicas. Então, por que razão se evitam brincadeiras com recurso, por exemplo, a água e areia/terra, ainda por cima tendo em conta o nosso clima privilegiado?

 

Com efeito, a água é um dos elementos mais solicitados pelas crianças em espaços destinados ao recreio e parques infantis. Recorrer ao imaginário e mexer com a terra e água. Fugir das rotinas quotidianas e ter a liberdade de se sujar. É sadio e natural que assim seja. Roupa é só roupa, lava-se!

 

Devemos, nestas áreas, tentar promover também a “inteligência emocional”. Esta influi na felicidade da criança e contribui para a sua motivação. As emoções controlam a capacidade de aprendizagem e facultam orientação para viajar na mente, que é complexa, difícil e muitas vezes traz conflitos internos.

 

O crescimento e definição de uma entidade e personalidade próprias, desenrola-se no mundo da fantasia e na mente. Operamos muito e incansavelmente nesse universo, para que sejamos inteiros.

 

Muitas crianças são privadas da descoberta da sua própria identidade e individualidade, quer pelo excesso de zelo na relação de díade e pedagogos, quer pelo excesso de tempo em salas de aula fechadas, pelos trabalhos de casa e pelas mil actividades extracurriculares em que estão inseridos, perdendo o seu tempo útil para ser verdadeiramente infantes.

 

Quantos de nós não se perderam ao longo do caminho, passando depois imenso tempo apostando na redescoberta? Tentamos colocar as crianças em caixinhas diferentes, bem catalogadas e controladas, com barreiras físicas, até, criadas por nós próprios [adultos]. Espremê-las em moldes nos quais podem nem sequer caber, porque é uma projecção dos desejos e racionalidade dos adultos, não se coaduna com a realidade da criança, muito menos com a tentativa de descoberta de si próprio. No fundo, esperamos que se comportem como adultos de “palmo e meio”. Exemplo disso é o crescente diagnóstico de hiperactividade e défice de atenção, tratado com anestesiamento ou entorpecimento por meio de medicação, tranquilizantes ou estabilizadores de humor. Há quem afirme tratar-se de um efeito colateral da educação no seu sentido mais abrangente.

 

A emoção é a força motriz da aprendizagem. Qual o objectivo de formatar sem os ensinarmos primeiro a compreenderem-se?

 

O nosso objectivo, estando focado num público alvo, dever-nos-á encaminhar para o seu mundo.

 

O ser humano está feito para crescer numa atitude dinâmica, para ser cada vez mais ele mesmo. Temos um potencial riquíssimo para descobrir todos os dias. Valorizar e viver. Logo, a não ser que mente e emoção estejam irremediavelmente bloqueadas, tudo o que nos define está em permanente mudança.

 

Deixemos as crianças serem crianças.

 

Criemos crianças mais felizes e independentes. Deixemo-las CRESCER.

 

Filipa Montalvo é arquitecta paisagista e responsável do Departamento de Orçamentação, Projecto e Departamento Comercial na Vedap

TAGS: comentário , Filipa Montalvo , superprotecção , crianças , zonas de recreio
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