Comentário de Carmen Lemos: "Vemos, ouvimos e lemos"

30.05.2016

Não podemos ignorar todo o processo que está a acontecer à volta deste tema da reabilitação urbana.

 

Que precisamos de investimento para levantar a economia, este sector está a constituir uma séria oportunidade e já tirou muitos proprietários de grandes dificuldades económicas.

 

Que as expectativas de crescimento das imobiliárias é grande baseada nos resultados alcançados o ano passado, cuja tendência de crescimento se mantem.

 

Que cerca de 90% do investimento na reabilitação urbana é estrangeiro, pelas vantagens fiscais que neste momento estão a ser dadas e capacidade de investimento.

 

Que a procura se dirige essencialmente aos núcleos urbanos com valor histórico, identitário e potencial turístico.

 

Que estes centros urbanos, já com pouca população por fenómenos socias e económicos, estão agora ainda mais a ficar sem população residente permanente, o que é contraditório como sentido de “reabilitação”.

 

Que “reabilitação urbana” é um todo mais abrangente, envolvendo tecidos urbanos e sociais, por inerências de competências a cargo das autarquias pelo menos na parte dos encargos.

 

Que a denominada estratégia de “compactação” dos centros deve pressupor a ocupação dos vazios urbanos e não a compactação da construção com estrangulamento/saturação da rede viária e dos espaços verdes de estadia/lazer.

 

Que está a acontecer uma “reabilitação do edificado” que levanta sérias preocupações aos técnicos qualificados deste sector.

 

O nosso passado, o nosso edificado veio até aos nossos dias com uma razoável conservação das suas características essenciais, construtivas e arquitectónicas. Mas tem vindo a ser destruído, no mínimo por ignorância, sobre o seu sistema construtivo e valor arquitectónico, para multiplicar apartamentos com Kitchenette e decorações de moda em vez de um exercício sério de intervenção arquitectónica.

 

O que está a acontecer é um exercício simples de rentabilidade económica aqui e agora, que a lei permite, (tenha sido esse ou não o seu objectivo) salvaguardando-se moralmente na responsabilidade e idoneidade do técnico, autor do projecto.

 

O que está a acontecer é a demolição total ou quase total de edifícios mantendo apenas a sua fachada, o nem sempre se justifica a não ser por razões de facilidade de intervenção, criando um produto “sucedâneo “ do autêntico.

 

A política seguida na Europa em reabilitação, de “fachadismo” teve origem na necessidade de reconstituir fachadas, ruas, quarteirões (muitas vezes através de fotografia) para recriar laços de identidade e memória colectiva após a destruição maciça provocada pela guerra. O que não aconteceu em Portugal pelos que os pressupostos de “reabilitação urbana” são muito diferentes.

 

Aqui, de destruição, tivemos o caso do Chiado e a intervenção foi exemplar, contemporânea, mas profundamente envolvida com a herança histórica.

 

O futuro constrói-se sobre o passado e não podemos viver num museu, mas parece que falta (muito) o conhecimento e respeito nas intervenções neste legado com valor cultural e agora valor económico. Como contornar?

 

Não sei se o aluno quer aprender sabendo que lhe é dado sempre a “escolaridade obrigatória” e ninguém vai realmente ver o que anda a fazer. Que futuro (sustentável) e qual é o papel da sociedade civil, das entidades, do Estado para tudo isto?

 

Carmen Lemos é arquitecta, possui uma pós-graduação em Recuperação de Centros Urbanos pela ETAC/UNESCO, um curso de Gestão Pública na Administração Local/CEFA e é técnica superior na área do Planeamento. 

TAGS: Comentário , Carmen Lemos , turismo , território
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