Comentário Filipa Montalvo:"Impacto social de espaços públicos e de recreio"

05.11.2015

Num anterior artigo, referi o facto de todos escolhemos locais onde a nossa permanência possa ser duradoura e agradável e onde o valor estético da paisagem esteja relacionado com a nossa capacidade de satisfazer exigências espirituais e emocionais. De facto, Parques, jardins e demais espaços públicos, são fundamentais para a qualidade de vida, principalmente urbana, em qualquer parte do Mundo. Promovem e estimulam a interacção social, apresentando-se como uma benesse ao “estado de saúde” das comunidades um pouco por toda a parte. Desde áreas com alta densidade populacional, onde as pessoas tendem a isolar-se e a viver mais para si mesmas e para os seus próprios “quintalinhos”, os únicos de que cuidam quanto mais não seja porque a gestão do tempo útil é mais difícil, às áreas mais rurais, onde a solidão é uma realidade cada vez mais vincada principalmente para as faixas etárias mais elevadas. 

 

Por motivos políticos, sociais ou económicos, nem sempre os nossos espaços públicos têm a dignidade que merecem ter e cumprem a sua real e utópica [ou não] função de promover a prática de actividades físicas, recreacionais, lúdicas, culturais e sociais numa tentativa de aproximação de gerações.

 

Como tão bem expôs a Urbanista Gayle Souter-Brown, “A nossa percepção e apreciação se um espaço urbano, são em grande parte, determinadas pela qualidade dos seus espaços verdes. Se este tipo de espaços começarem a apresentar sinais de degradação, é porque na generalidade a comunidade urbana e entidades oficiais se desligaram dessas zonas.”

Também neste sentido, estudos sociológicos elaborados em bairros problemáticos revelam, que quanto mais aprimorado é o projecto de um espaço exterior e a execução do mesmo, bem como, quanto maior a qualidade do equipamento e mobiliário urbano previsto e restantes materiais empregues, maior é o cuidado da comunidade na preservação e manutenção passiva de um espaço que sentem ter sido criado para eles com o mesmo brio e salutar empenho com que seria projectado para um qualquer bairro nobre.

 

Racional ou irracionalmente ninguém gosta de se alimentar de migalhas e todos temos direito ao mesmo! A velha expressão de “para quem é bacalhau basta” não deveria ser empregue no que concerne a pessoas e ao seu bem-estar.

 

Em termos económicos e apostando numa visão futurista de contenção, não seria mais sensato investir-se em qualidade, sustentabilidade e durabilidade, ao invés de permitir uma rápida degradação dos espaços, consequente abandono e necessidade de reformulação dos mesmos de poucos em poucos anos? 

 

A nós projectistas, nem sempre é dada a margem de manobra necessária para que possamos dar o nosso melhor, mas podemos sempre tentar, e no fundo continuar sonhar com mais e melhor para todos enquanto sociedade.

 

Filipa Montalvo é arquitecta paisagista e responsável do Departamento de Orçamentação, Projecto e Departamento Comercial na Vedap

TAGS: comrntário , Filipa Montalvo , impacto social , espaços públicos
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