Comentário Filipa Montalvo:"Superprotecção das crianças em zonas de recreio"

18.11.2015

PARTE I

É recorrente o esquecimento de que os parques infantis se destinam a crianças. Os projectistas e entidades públicas, principais impulsionadores destas áreas, tendem a abafar a visão sonhadora típica da infância, projectando com racionalidade em demasia, pondo em causa o mundo de fantasia em que vive e deve viver o público alvo.

 

Os parques infantis devem proporcionar o sentido de descoberta. Devem ser inovadores. Mas este objectivo, bem como a sua concretização, dependem directamente do trabalho de equipa. Não são responsabilidade exclusiva do projectista, mas da coordenação interdisciplinar entre Arquitectos, Arquitectos Paisagistas, Urbanistas, Engenheiros, entidades públicas e/ou privadas, e no caso dos Parques Integrativos, de organizações de defesa à deficiência ou organizações sociais, possuidoras de experiência e conhecimento necessário para que se atinja o ponto óptimo da proposta.

É certo que cada país tem normas e legislação pelas quais se rege na hora de projectar, mas não estaremos nós a proteger em demasia as nossas crianças, inibindo-as assim do poder da descoberta por tentativa e erro, pelo condicionamento da sua inocente liberdade? Não será o facto de permitir um risco controlado uma contribuição para o desenvolvimento saudável de um ser humano mais preparado para o mundo real, mais conhecedor, autónomo, capaz, flexível, tolerante consigo mesmo e com os outros, adaptável na interacção social?

 

Parece-me que nos dias que correm, a superprotecção, promovida pelos pais, educadores e pela própria legislação, cria crianças pouco preparadas para o mundo, sendo que este, feliz ou infelizmente, não está feito para “flores de estufa”. Assistir-se-á eventualmente, a dificuldades de interpretação do conceito de mundo real, da vida em sociedade, da distinção do “que é meu” e do “que é dos outros”, dos perigos reais. Poder-se-ão estar a criar seres medrosos, com parca capacidade adaptativa, demasiado introvertidos e, no fundo, ninguém vive completamente sozinho. Todos temos algum grau de dependência com terceiros.

Se não lhes é permitido ou promovido algum grau de contacto com o “risco”, não existirá aprendizagem por experênciação, potenciando assim a criação de “crianças em cativeiro”. Como me disse alguém que muito prezo, a noção de dor é necessária e extremamente produtiva. Saber cair para saber levantar parece, na minha modesta opinião, uma máxima adequadíssima ao caso em questão e desempenha um papel único no desenvolvimento de um indivíduo enquanto ser biopsicossocial.

 

Não queremos adultos do futuro com um alto grau de incapacidade, dependentes ou frustrados. Há que experienciar para crescer porque a vida não será revestida a piso amortecedor de borracha, nem a brincadeiras em nenúfares e nuvens fofas. Demasiado agressiva esta minha abordagem? Talvez! Mas não deixa, no entanto, de ter fundamento.

 

Filipa Montalvo é arquitecta paisagista e responsável do Departamento de Orçamentação, Projecto e Departamento Comercial na Vedap

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