Comentário João Appleton: A reabilitação urbana e a intervenção cívica

09.05.2016

Recentemente assistiu-se a uma interessante polémica, a que a comunicação social deu relevo, sobre a possível demolição da Vila Martel, construída na encosta que desce de São Pedro de Alcântara, para dar lugar a um novo edifício de dimensão significativa, incluindo quatro caves destinadas a parqueamento automóvel, mais outros tantos pisos acima do solo, coroados com espaços complementares de um hotel em construção na proximidade da Vila.


Não é intenção, aqui e agora, discutir as posições das partes, entre o promotor que quer demolir e construir e aqueles que pugnam pela preservação do edifício antigo, na defesa de uma longa história da vida do edifício e dos seus ocupantes mais ilustres; como quase sempre, cada parte tem as suas razões, parecendo que neste caso, os poderes públicos que são os decisores, se inclinam claramente para a não aprovação do novo projecto, salvaguardando o futuro da Vila Martel.

 

O mais interessante deste caso é a sua raridade no nosso País; de facto, a polémica que foi levantada deriva de um pouco frequente exercício de cidadania, em que se juntaram organizações não governamentais de defesa do património e de Lisboa em particular, moradores da zona e cidadãos "dispersos", especialistas ou não, para contestar, na praça pública, o que parecia ser um facto prestes a consumar-se, com a demolição integral do imóvel.

 

É essa raridade que se salienta, se saúda e se aplaude; afinal, os portugueses não se distinguem particularmente pela intervenção cívica, pelo exercício singular ou colectivo da cidadania.

 

Ao contrário de outros povos, como os anglo-saxónicos, os portugueses não se mobilizam facilmente para este tipo de causas, entendem que cada um deve cuidar de si mesmo e esperar que "eles" tratem do que é de todos. "Eles" são os outros, em especial a amaldiçoada classe política, os dirigentes, os chefes, "eles" estão "lá" para isso mesmo e depois basta dizer mal, seja como for que "eles" decidam.

 

Este é o mesmo comportamento que faz os portugueses não gostarem das verdades directas, as coisas não são o que são, mas são assim-assim, ou quase isto, ou mais ou menos aquilo.


Esta falha, que é de cada um e de todos, é demasiado importante para passar em claro: como já não há razão para ter esperança nas actuais gerações, designadamente naquelas que estão ou vão alcançar o poder político, social, económico, resta esperar que as novas gerações se revoltem perante esta incapacidade de ser cidadão de corpo inteiro.

 

No património, e consequentemente, na sua conservação e reabilitação e nos processos seguidos na abordagem com que se assegura a sua preservação para usufruto futuro, a intervenção cívica é essencial, como travão para erros e desmandos, para o efectivo controlo do que fazem os poderes públicos e privados.

 

O que pode desejar-se, o que desejo, é que casos como o da Vila Martel deixem de ser notícia, sinal de que já não são mais acontecimentos raros e se tornaram, por acção constante de cidadãos de olhos bem abertos, casos banais que, com o tempo, deixarão até de levantar controvérsia.

 

É altura de agir no sentido de deixar claro que uma cidade não é deste ou daquele que circunstancialmente é dono deste ou daquele imóvel, deste ou daquele pedaço da cidade; esta é dos cidadãos, dos que nela residem ou trabalham, dos que a visitam e apreciam, de todos aqueles que a amam ou podem amar; através de uma intervenção cívica crescente contribuamos todos para devolver as cidades aos cidadãos.

 

Para uma cidade como Lisboa, onde pouco resta de solos para implantar novas construções, isto significa a necessidade, a premência, de olhar atentamente para a reabilitação urbana que respira vitalidade, sobretudo nas suas zonas mais antigas e consolidadas, controlando de modo efectivo operações que só com muito boa vontade e de olhos fechados se podem classificar como reabilitação e que põem objectivamente em causa a preservação do património arquitectónico.

 

João Appleton, é engenheiro civil (IST), especialista e investigador coordenador pelo LNEC, conselheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes (aposentado) e sócio da A2P- Estudos e Projectos.

TAGS: Comentário , João Appleton , construção , reabilitação
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