Comentário João Appleton: "Construção pombalina: virtudes e mitos"

15.06.2016

Como sabem muitos dos que me lêem, designa-se por construção pombalina aquela que foi realizada após o grande terramoto de 1 de Novembro de 1755, com recurso a um conjunto definido de materiais e soluções técnicas adoptadas na reconstrução da cidade de Lisboa.

 

É interessante verificar que o peso determinante daquela figura política polémica que foi Sebastião José, primeiro Marquês de Pombal, foi tal que o seu título nobiliárquico foi "repescado" no século XIX para dar o nome à zona baixa da cidade de Lisboa, à tipologia arquitectónica e construtiva comum na zona da reconstrução, mas generalizada a toda a cidade e mesmo a todo o País.

 

Sobre a designada construção pombalina criaram-se diversos mitos, com maior ou menor fundamento mas, na sua essência, originados por ignorância e pelo desejo de acrescentar grandeza a algo que foi, de facto, muito grande, talvez dos maiores sucessos da nossa história.

 

O mito maior assenta na ideia da criação original da dita "gaiola pombalina" (de novo a referência ao Marquês que, provavelmente, pouco saberia de construção), elemento de referência de toda a estrutura dos então novos edifícios; a esta "inovação" associou-se a questão da segurança sísmica dos edifícios da cidade nova, testada publicamente e com grande espavento.

 

O segundo grande mito, que quase ainda persiste, reside na ideia da "descoberta" das fundações com estacaria de madeira, destinada esta a resolver o problema da falta de competência mecânica dos aterros e aluviões do vale da Baixa.

 

Os que mitificaram e seus seguidores imaginariam, porventura, a equipa de excepcionais arquitectos e engenheiros militares encarregados de pensar a reconstrução debruçada sobre o papel, a desenhar edifícios, estruturas e fundações, à procura da luz inspiradora, do sinal da descoberta de novas, revolucionárias, soluções.

 

O bom senso, coisa de que muito boa gente carece, recomendaria alguma prudência na adjectivação a usar relativamente à construção pombalina: afinal, a vida das sociedades e o seu progresso fazem-se essencialmente segundo processos de continuidade, com roturas e saltos ocasionais.

 

Neste caso, a prudência manda que se procure, primeiro, a existência de experiência anterior, de exemplos que possam ser considerados modelos de referência, na construção como se fez com o urbanismo e com o desenho arquitectónico.

 

Neste sentido, é aliciante fazer essa pesquisa com base em edifícios construídos antes do terramoto, que lhe tenham sobrevivido sem danos relevantes e que mantenham, em grau razoável, a sua originalidade arquitectónica, construtiva e estrutural; Lisboa tem, apesar do elevado nível de transformação que sofreram as suas zonas consolidadas, sobretudo a partir do final do século XIX, um número interessante de exemplares construídos antes de 1755 e que se enquadram no desiderato de saber como era feita a melhor construção habitacional pré-terramoto.

 

As circunstâncias levaram-me ao contacto directo com o chamado Palácio Ludovice, a São Pedro de Alcântara,  que é menos palácio do que prédio de rendimento.

 

Olhando atentamente o edifício e a sua estrutura, lá está o piso baixo com arcos e abóbadas de aresta, as paredes mestras de alvenaria e os frontais de suporte de pavimentos e de travamento, ou seja, ali estão presentes todos os tipos de elementos, comuns á construção pombalina.

 

Nesta altura, o leitor perguntará, então a genialidade da gaiola é fantasia, é apropriação indevida daquilo que a construção setecentista anterior já transportava?

 

A resposta a esta dúvida legítima é negativa: a construção pombalina não é inovadora no que se refere à individualização dos elementos que a constituem, mas representa um passo gigantesco no caminho de uma racionalização que é a mãe da industrialização e da prefabricação.

 

Quer isto dizer que, se a construção pombalina não partiu da "invenção" de cada uma das suas partes mas sim do todo estrutural, obtêm-se soluções antes não aplicadas de forma sistemática e com enormes virtualidades; é quanto basta para valorizar o pombalino, não são necessários mitos, nem mistificações.

 

Uma segunda ficção associada à construção pombalina refere-se ao sistema de fundações, em particular ao recurso a estacaria de madeira.

 

O mito centra-se em três equívocos: o primeiro é o de se pensar que a estacaria de madeira é intrínseca a toda a construção pós-terramoto; o segundo, mais grave, consiste em crer que são as estacas de madeira que sustentam o peso dos edifícios e o transmitem ao solo de fundação; o terceiro, totalmente sem fundamento, consiste em acreditar que o uso de estacaria de madeira foi outra descoberta dos arquitectos e engenheiros pombalinos.

 

Como quase sempre, esses equívocos são filhos da ignorância e da insensatez.

 

O primeiro não tem qualquer racionalidade e a sua prova é fácil de fazer: para que serviria a estacaria de madeira quando os solos superficiais são mecanicamente competentes, para quê cravar estacas em solos rijos e semi-rochosos quando é tão fácil fazer fundações directas, isoladas ou contínuas, de alvenaria ordinária de pedra.


O recurso a estacas entende-se em solos fracos, como sucede com os aterros e aluviões em zonas ribeirinhas como é o caso do vale da Baixa de Lisboa (como em Setúbal e noutra localidades); mas, nesse caso, logo que se sai dessas zonas aluvionares, abandonam-se, por desnecessárias, as estacas de madeira, como é natural, como se comprova em edificações existentes, designadamente quando se fazem escavações que deixam à vista o sistema de fundações: equívoco desfeito, fim do mito.

 

O segundo equívoco é igualmente irracional, desculpa-se que seja ideia defendida por naturais ignorantes na matéria, custa que gente com formação de engenharia, pense dessa forma e persista no erro, que só pode compreender-se em que nunca viu nada e pensa pouco nestes assuntos.
A questão simples de ver, como já observei em diversíssimos casos, é que as estacas de madeira usadas nas fundações pombalinas têm cerca de 1m de comprimento, no máximo 1,5m, e assim se aplicam, esteja o terreno firme a 2 ou a 20m de profundidade, ou seja, as pontas das estacas cravadas não mobilizam solos mecanicamente razoáveis.

 

De facto, por muito que lamentem os que se alimentam de equívocos, o sistema de estacaria, com o seu engradado de coroamento, é um sub-sistema cuja execução se destina simplesmente a assegurar uma boa compactação do solo numa pequena profundidade sob os espessos massames de alvenaria que se executam, designadamente, sob as paredes estruturais.

 

Convém referir que existem edifícios com fundações sobre estacas de madeira e estas são cravadas profundamente no terreno firme, por vezes a 10-15m de distância; mas os edifícios pombalinos não pertencem a esta história; comprovada, objectiva e inequivocamente, a existência sistemática de pequenas estacas cuja ponta fica muitos metros acima dos terrenos competentes, fica desfeito o segundo equívoco, fim do mito.

 

Por último, vem a questão da autoria da descoberta da solução: como em relação à estrutura, não há qualquer racionalidade quando se admite que essa autoria recai sobre os engenheiros da reconstrução.

 

Está mais do que evidenciado (a arqueologia tem sido auxiliar precioso na compreensão deste problema) que o recurso a estacas de madeira como componente de sistemas de fundações era, ao tempo do terramoto, do conhecimento praticamente universal no meio técnico.

 

Essa certeza fica comprovada quando sob construções inequivocamente pré-terramoto se encontram estacas de madeira rigorosamente idênticas às que se usaram nos edifícios da reconstrução; entre muitos exemplos que se podem respigar refere-se o caso das obras joaninas no Hospital de Todos-os-Santos, em que, nas escavações da Praça da Figueira, foram encontradas numerosas pequenas estacas. Outro equívoco desfeito, fim do mito.

 

O que se disse não desmerece o valor dos construtores da cidade nova; a forma rigorosa como se racionalizou a execução de fundações, com prefabricação de estacas que serviam para as mais diversas obras e o cuidado colocado nessa execução, considerando o sistema composto por massames espessos e estacarias, deram origem a obras seguras com excelente desempenho estrutural, comprovado pela forma como esses sistemas se comportam, quase sem mácula.
Não será uma história tão heróica, cheia de descobertas e invenções: aproveitou-se bem os conhecimentos existentes e tirou-se partido de experiências anteriores para uniformizar, sistematizar e racionalizar procedimentos.

 

E já não foi pouco!

João Appleton, é engenheiro civil (IST), especialista e investigador coordenador pelo LNEC, conselheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes (aposentado) e sócio da A2P- Estudos e Projectos.

TAGS: Comentário , João Appleton , construção , reabilitação , construção pombalina
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