Comentário Luís Baptista Fernandes:"Cidade viva"

29.10.2015

O Jornal Público, na sua edição de 27.OUT, pela mão de Inês Boa Ventura e a propósito de um trabalho da Socióloga Sandra Marques Pereira, descreve as vivências e experiências dos habitantes da Urbanização da Portela.

Este bem conhecido Bairro da Cidade de Loures, da autoria do Arquiteto Fernando Silva, é destacado na peça como possuindo uma qualidade urbana notável.

 

Se bem que o interesse jornalístico esteja focalizado nos ambientes e comportamentos dos seus habitantes, numa lógica das relações sociais em meio urbano, muito haveria a dizer sobre a conceção deste modelo urbanístico iniciado na década de 70 do século passado, 

De facto, Fernando Silva teve o mérito de desenhar esta parcela da cidade, naquilo que muitos apontam em Portugal como o início do moderno Planeamento das periferias.

 

A dinâmica da cidade de Lisboa, carreada pelas transformações e expansão urbana dos Concelhos periféricos, é um espaço muito rico para se perceber a teorização dos modelos experimentados e criados com a inspiração e tendências tardias do Movimento Moderno.

Para uns tratou-se apenas a verticalização da cidade, para outros o desastre suburbano.

Recorde-se que o fenómeno foi extensível praticamente à totalidade da hoje reconhecida Área Metropolitana de Lisboa, havendo inclusivamente, por exemplo, em Oeiras e do mesmo autor, dois outros Bairros (Alto da Barra e Quinta do Marquês), que detêm analogamente os mesmos princípios inspiradores de rutura com as formas urbanas do passado.

 

Quatro décadas após a criação destas e daquela urbanização, é oportuno o estudo sobre o sentimento e o testemunho pessoal dos seus habitantes para se perceber mais de perto os níveis de sucesso do “ideal funcionalista e a democratização do habitat”1 e que se instalou nas grandes metrópoles europeias, sobretudo a partir do período pós II Guerra Mundial em oposição à repetição construtiva estandardizada e anónima que inundou, nesse período, os arredores das nossas principais cidades.  

São neste sentido dignas de registo as observações produzidas por alguns dos moradores quando questionados, nas entrevistas, a qualificar as suas experiências ou as razões que determinaram a opção de viver na Portela:

Achei graça à organização do espaço…” ou, “…as casas eram moderníssimas, novas, grandes, com muita luz, e tinham um preço acessível” ou, “…tem uma comodidade de viver muito grande. Há aqui umas condições fabulosas” ou ainda, “…percebemos as vantagens dos subúrbios quando temos crianças”.

 

Sobretudo esta última frase, de alguém que à data iniciava a sua vida autónoma e pretendia constituir família foi, para o bem e para o mal, o engodo que determinou o grande êxodo para as periferias e a sucessão de urbanizações com nomes distintos e apelativos que estiveram na origem do citado desastre suburbano.

Estes oásis vanguardistas na construção dos então subúrbios demonstra, como de resto a publicação atesta, a importância da composição urbana associada a uma forte atitude concetual, como fatores determinantes na construção das Cidades e o papel dos Urbanistas na condução das transformações urbanas e do processo de Planeamento.

 

Luis Baptista Fernandes, é arquitecto, pos graduação em Planeamento Regional, Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e director do Departamento de Planeamento e Gestão Urbanística da Câmara Municipal de Oeiras

TAGS: comentário , Luís Baptista Fernandes , cidade viva
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