Editorial de João Pedro Costa: "O Príncipe Génio e o Príncipe Método"

01.02.2016

Era uma vez um Reino distante, chamado Democracia, onde todos queriam viver em igualdade, fraternidade e prosperidade.

 

Mantendo a tradição, o filho primogénito herdava o trono, e era, desde novo muito, bem preparado para garantir a igualdade, a fraternidade e a prosperidade; e assim todos viveram felizes por muitos anos.

 

Certo dia… algo de estranho aconteceu. O que devia ser um momento de celebração, o nascimento do novo primogénito, abalou a estabilidade. Nasceram dois gémeos verdadeiros, rapazes. E como eram iguais na aparência, ninguém conseguia afirmar qual teria nascido primeiro.

 

Naturalmente que ambos foram criados como primogénitos; ambos foram educados na mesma excelência, para estarem aptos a governar e a garantir a igualdade, a fraternidade e a prosperidade em Democracia. Em boa verdade, como ninguém sabia o que fazer, essa foi a solução para ir adiando o problema da sucessão…

 

Porém, entre os gémeos, que tão bem se conheciam, foi crescendo uma rivalidade surda, que se revelou no desenvolvimento de personalidades diferentes.

 

Um dos príncipes procurava desenvolver características de génio. Achava que assim se distinguia. Tinha de ser o melhor em tudo, top1, e logo. Desenvolveu a arte de improvisar, para ser sempre o melhor, para tomar as rédeas de todas as situações; para, num passe de génio, resolver problemas, inverter situações desfavoráveis, liderar portanto.

 

O outro príncipe procurava desenvolver características de consistência. Achava que assim se distinguia. Tinha de ser bom a tudo, mas não precisava de ser o melhor; e como tinha de ser bom apenas no final, não tinha problemas em começar com dificuldades, desde que fosse capaz de trilhar um percurso consistente, estável, em crescendo, para no final, quando se fazem as contas, ser bom. Desenvolveu a arte do método, para ser sempre bom, para tomar as rédeas de todas as situações, para, em trabalho estável e continuado, resolver problemas, inverter situações desfavoráveis, liderar portanto.

 

Com a morte do Rei Pai, chegado portanto o momento da sucessão, foi preciso escolher entre os dois, e, na ausência de um Rei para o fazer, teve de se consultar o povo. Claro que, em Democracia, onde todos são iguais, fraternos e prósperos, a solução passou por uma eleição justa, antecedida por um debate coletivo. E como os gémeos eram iguais na aparência, foi na sua personalidade que a discussão se centrou. Qual dos dois perfis melhor serviria o futuro de Democracia?

 

Naturalmente, o Príncipe Génio era impulsivo, tinha sempre resposta pronta, mesmo antes de se lhe fazerem as perguntas. Resolvia todos os problemas na hora, com uma saída que ninguém tinha sido capaz de imaginar, tal a genialidade inata, pelo que não tinha de perder tempo com a organização, nem valorizava a continuidade. E quando alguma decisão se revelava errada, logo outro golpe de génio resolvia o problema, todos convencendo que afinal a solução inversa era a melhor e que ele tinha sido o primeiro a vislumbrar tal reforma. Seria, portanto, um príncipe reformista, cada vez mais reformista, à procura da perfeição em todas as áreas ao mesmo tempo com soluções imediatas.

 

O príncipe Método era organizado e trabalhador, não respondia na hora porque precisava de olhar melhor para os problemas. E estes, só se resolviam com tempo, não acreditava em passes de mágico, que era o caminho do irmão. Mas ficavam sempre tão bem resolvidos, tal era a capacidade de organização e a continuidade das soluções, pelo que, depois de resolvidos, os problemas nunca mais regressavam. Não valorizava o génio, desvalorizando mesmo o improviso, que achava servir para o curto prazo mas ser, inversamente, prejudicial para o médio e longo prazo. Seria, portanto, um príncipe progressista em continuidade, cada vez mais consistente, à procura do melhor equilíbrio possível para todas as áreas ao mesmo tempo.

 

A história não termina aqui, mas não se sabe ainda o que aconteceu.

 

Há quem diga que, em Democracia, a escolha foi tão difícil que o Reino acabou por se dividir em dois: os do norte escolheram o Príncipe Método, e os do sul o Príncipe Génio. Mas não passa de uma lenda.

 

Outra lenda diz que, depois disso, em Democracia, como nenhum encontrou a felicidade, resolveram juntar a Casa do Norte e a Casa do Sul, num casamento que reunificou o Reino, porque afinal a solução estava no meio-termo, retomando o seu anterior nome, Europa.

 

Mas não passam de lendas.

 

João Pedro Costa é o director do Jornal Arquitecturas.

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