Editorial de João Pedro Costa: "Os sábios de dentro e os sábios de fora"

08.02.2016

Era uma vez uma cidade cheia de problemas. Estava em crise, diziam, apesar de manter as características que faziam dela cidade e, de lá, continuar a valer a pena viver.

 

Consciente de que as coisas não corriam bem, assim diziam os de fora, e assim, sentiam os de dentro, o Primeiro-

Cidadão, chefe legítimo da cidade, resolveu finalmente consultar um sábio em cidades, para resolver os problemas de uma vez.

 

Note-se que, antes, tentara por sua iniciativa, alternativas a que a história atribui inúmeras designações, mas nenhuma resultara: a alternativa austeridade, a alternativa fim-da-austeridade, a alternativa nós queremos resolver mas os maus não deixam, bem como outras alternativas que ainda não sabemos quais foram.

 

Porém, depois de muitos anos a ensaiar alternativas, sem sucesso, resolveu consultar, de facto, o mais relevante sábio em problemas de cidades, para resolver os problemas de uma vez. Tarefa de elevada notoriedade, vários sábios se ofereceram para o ajudar, e o que parecia uma decisão correta veio levantar um novo problema: como escolher o sábio certo, de entre os sábios?

 

Duas correntes se montaram então.

 

Os de dentro defendiam que devia ser escolhido o sábio que melhor conhecia a cidade. Seria de dentro, claro, e conhecia todos os cantos da cidade, todas as pessoas da cidade, todas as rotinas da cidade e, mais importante, amava a cidade.

 

Os de fora defendiam que devia ser escolhido o sábio que melhor conhecia todas as cidades do mundo. Seria de fora, claro, conhecia apenas um pouco da cidade que estava cheia de problemas, e amava todas as cidades por igual.

 

Como esta cidade pertencia ao Reino de Democracia, de que falávamos no editorial anterior, que depois se veio a chamar Europa, a escolha tinha de ser consensualizada entre todos. Como deve ser, foi lançado um debate público sobre quais os critérios para a escolha do sábio.

 

Os argumentos foram variados. Os de dentro diziam que os sábios de fora não conheciam a cidade e que, por isso, as suas soluções eram desajustadas. Os de fora diziam que os sábios de dentro estavam cegos pelo seu amor à cidade e que, por isso, não conseguiam ter a distância necessária para observar os problemas com lucidez e isenção.

 

Os de dentro diziam que os de fora pensavam antes nas suas cidades e que queriam era explorar os de dentro. Os de fora diziam que os de dentro viviam à custa do apoio dos de fora, que sozinhos tinham tomado más decisões e que, por isso, é que a cidade estava em crise. Esgrimiram-se muitos bites de argumentos, o nome que em Europa era dado aos lugares onde se guarda a informação.

 

Diz a lenda que o problema acabou por se esvaziar, pois, afinal, em Europa há séculos que não havia fronteiras e, por isso, não fazia sentido distinguir os de dentro e os de fora, pois todos se haviam misturado.

 

Diz outra lenda que não foi bem assim e que, depois de séculos sem fronteiras, em Europa cada cidade construiu um muro para se separar das outras, o que aliás é cíclico na história do Homem. Embora o problema tenha acabado também por se esvaziar, pois os sábios de fora deixaram de poder entrar na cidade e os de dentro, de novo isolados, passaram a tomar conta de si, ainda que tenham retrocedido muitos séculos na civilização.

 

Um dos problemas da cidade em crise é que a própria História também estava em crise, e os sábios também e, por isso, nem se sabe qual das lendas é verdadeira, nem se seriam os sábios quem melhor podiam ajudar a cidade a sair da crise, pois tinha sido o seu saber a criá-la.

 

João Pedro Costa é o director do Jornal Arquitecturas.

TAGS: Editorial , João Pedro Costa
Vai gostar de ver
VOLTAR