Opinião de Álvaro Domingues: "O interior e o exterior"

01.02.2016

As marcas e as memórias do velho Portugal rural vão-se decompondo com a desruralização e o seu rastro de efeitos colaterais: o despovoamento, o envelhecimento, o abandono da produção agrícola e dos campos, o desaparecimento de certos estilos de vida, saberes e práticas culturais – fados do “interior”, no dizer mais frequente sobre estas coisas.

 

Os poucos que vão ficando vivem de uma economia assistida entre pensões, reformas, poupanças, ou remessas de familiares e quem pode sai porque são escassos os empregos e as oportunidades de construir um projecto de vida (Álvaro DOMINGUES (2012, Vida no Campo, Ed. DAFNE, Porto).

 

Depois do tempo longo da agricultura de subsistência e dos agricultores pobres, os portugueses foram emigrando até a um nível de esvaziamento e desequilíbrio populacional que torna o facto aparentemente irreversível. Com o investimento público depois de Abril de 1974, particularmente com a injeção intensiva de fundos da União Europeia, as cidades e vilas sedes de municípios ganharam actividades e emprego, desenvolveram-se, mas chegaram também agora a um nível de estagnação e perda que se acelera com a desconstrução do Estado Social e a apatia do investimento privado. Fecha tribunal, escola, urgência, centro de saúde…, abre centro de dia, lar de idosos e na cabeça de certas criaturas abrem-se paraísos sustentáveis de natureza, paisagem, ambiente e património. Já não se pode com esta treta.

 

Triste sorte. Quando as políticas públicas dotaram essas terras de condições que nunca tinham tido já era tarde. Tanto tempo, desde os afonsinhos, de miséria e mau viver, já tinham soltado a tampa e agora era tarde.

 

O interior foi para o exterior. De pouco serve reclamar equilíbrios regionais que são impossíveis e nunca existiram. Mais vale dissecar os assuntos que vivem dentro desse “interior” para se ter uma ideia mais clara daquilo do que se fala e do que se pode fazer.

 

Pudesse a ruína deste espigueiro levitar a cinco metros do chão e o mundo seria mais que perfeito.

 

Álvaro Domingues, licenciado em geografia, doutorado em Geografia Humana e professor e investigador na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

TAGS: Opinião , Álvaro Domingues , ordenamento do território , desertificação , interior
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