Opinião de Álvaro Domingues: "Objectos"

01.07.2016

Dentro da infinidade de animais que há, os humanos distinguem-se dos outros porque só conseguem viver rodeados de objectos. São milhões de anos de anos de genética, trabalhos práticos, dores de cabeça, grandes descobertas e insucesso escolar para sair do abismo da natureza e dotar a besta que há em nós de recursos para quase tudo: fazer casas e máquinas de voar, rolar no asfalto, ir ao facebook, prender cabelo com um gancho, matar o próximo, fazer um refogado e outras banalidades práticas que possibilitam a existência da palavra social e sociedade. É que os humanos sem dispositivos de socialização, simplesmente, não socializam, não trabalham, correndo o risco de se fecharem numa animalidade demasiado restringida a um código de actos e reacções automáticas para comer, procriar, enfrentar o perigo e outras coisas mais ou menos impensadas que fazem parte da vida nua – a vida biológica pura e simples de que fala Giorgio Agamben[1].

 

Para além dos objectos, os humanos também se ocupam de outros animais para domesticar, comer, trabalhar, fazer circo, tourada, cantar numa gaiola ou fazer omoletas, mel e estrume. Por sua vez, existe um exército minúsculo de bactérias e pulguedo nojento que se foi habituando a domesticar os humanos e outros como ratazanas e gaivotas que depressa aprenderam a tirar partido das coisas dos humanos.

 

Das últimas combinações que vi entre objectos e animais voadores, havia uma com águias na Holanda treinadas para apanhar drones indesejáveis[2] e uns pombos em Londres com umas mochilas electrónicas que analisam certas qualidades do ar[3], processam e depois enviam os resultados por twitter: gorjear, literalmente, apesar dos pombos não serem muito bons nisso mas a internet resolve - rimando: there’s an app for that, como se diz. Depois dos pombos-correio e dos canários que detectavam, morrendo, ar problemático nas minas de carvão, isto é muito mais interessante para a passarada. Não é completamente novo, claro. Nos ofícios da guerra, por exemplo, abundam as combinações entre animais e prótese tecnológicas para as mais diversas finalidades.

 

Entre ovelhas e painéis fotovoltaicos não havia experiência nenhuma: as ovelhas são demasiado arcaicas e os painéis ainda são muito novos, azuis e não tem pêlo lanígero nem carraça. Mesmo assim, pode dizer-se que vivem em simbiose, partilhando terrenos e pasto. No velho sistema mediterrânico do afolhamento de cereais de sequeiro, depois do trigo ceifado, os animais iam pastar para o restolho ou para as terras que ficavam em pousio; comiam algo mais ou menos seco e retribuíam em caganitas para adubar a terra. Depois esta cena foi-se finando com o milagre da água. A água rega muitas coisas que dão mais resultado do que o trigo e por isso a paisagem se vai destrigando.

 

A água de regadio que dantes vinha por gravidade correndo por valas artificiais, vem agora por condutas e canos e é bombeada e distribuída a distâncias impensáveis das albufeiras ao labirinto da rega gota-a-gota. É claro que o sistema tem custos energéticos que o negócio da venda de água não paga. Como há muita terra e muito sol por estas bandas alentejanas, as empresas de gestão de regadios plantam searas fotovoltaicas, produzindo parte da energia eléctrica que assim não terão que pagar. Tem lógica. Que se junte aos critérios de aptidão de uso do solo agrícola, a aptidão fotovoltaica que não estraga o solo porque não precisa de adubo e lavouras violentas. Também as plantas usam a luz do sol para as suas clorofílicas engenhosidades e nisso se aproximam.

 

Já me esquecia: as searas fotovoltaicas também não usam herbicida nem transgénicos resistentes ao herbicida. É esta a novidade. Por isso as ovelhas pastam no meio do azul; para não deixarem que a erva e o matagal cresçam e façam sombra ao azul da geringonça electrónica.

 

Assim se refresca o regime estético do romantismo pastoral para as almas poéticas e contemplativas que apreciam o campo e as suas amenidades e ficam contentes os que gostam das energias renováveis como a da ovelha escura da esquerda que é filha da ovelha escura da direita e que assim renovou a linhagem da energia ovina.

  

[1] Giorgio Agamben (1998), Homo Sacer: O Poder Soberano e a Vida Nua. Trad. de António Guerreiro. Lisboa: Presença, (ed. Original, 1995)

Idem, O Aberto. O homem e o animal (2011) Trad. de André Dias e Ana Bigotte Vieira. Lisboa: Edições 70, (ed. Original, 2002).

 

[2] http://www.nytimes.com/2016/05/29/world/europe/drones-eagles.html?_r=0

 

[3] http://www.dailygazette.com/news/2016/mar/16/pigeons-measuring-air-pollution/

Beatriz da Costa, uma artista radicada nos EUA já o tinha feito em 2006 enquanto misto de intervençáo art´sitica e política, http://nideffer.net/shaniweb/pigeonblog.php

 

Álvaro Domingues é licenciado em geografia, doutorado em Geografia Humana e professor e investigador na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

 

Outros artigos do autor em: 
http://www.correiodoporto.pt/category/rua-da-estrada
http://juponline.pt/2016/05/crise-de-identidade/

TAGS: Opinião , Álvaro Domingues , Objectos , energia solar fotovoltaica , Alentejo , ovelhas
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