Opinião de João Appleton: "Um caso para meditar"

27.06.2016

Há dias, numa obra, em Lisboa, ocorreu um grave acidente com uma grua; o colapso da mesma provocou a morte do operador que se encontrava na sua cabina e danos relevantes em edifícios vizinhos.


Não vem ao caso discutir aqui as causas directas, físicas, do acidente, isso será assunto para sede própria da investigação e inquérito que obrigatoriamente se fará.

 

Importa-me mais reflectir no que podem ser as causas profundas para este e outros acidentes com equipamentos usados na construção civil e em obras públicas.

 

Sabe-se que a crise global iniciada em 2011, na sequência do pedido de ajuda financeira para fazer face à questão da dívida soberana, com as terríveis restrições económico-financeiras impostas ao País, conduziu à objectiva destruição do sector da construção. Com a quase total paralisação de obras públicas, de que foram exemplo paradigmático a suspensão das obras de requalificação do parque escolar e de autoestradas, o sector assistiu a falências em cascata que afectaram todas as actividades correlacionadas, desde os produtores de materiais aos projectistas, das empresas de equipamentos às de construção.

 

A procura de mercados exteriores, na busca de solução salvadora, levou à emigração de operários e técnicos qualificados e à saída de muito equipamento de qualidade como aconteceu, por exemplo, para o mercado angolano.

 

Naturalmente, subsistiram oportunidades de negócio e a reabilitação urbana, designadamente em Lisboa e no Porto, foi parte substancial dessas oportunidades, disfarçando nessas zonas e nesse sub-sector a penosidade da crise que se vivia.

 

Sem obras, descapitalizadas as empresas que, apesar de tudo, conseguiam sobreviver, tiveram que recorrer a todas as vias possíveis para prosseguir a luta: a redução de salários aconteceu, tal como a queda de investimento em novos equipamentos e na manutenção dos existentes.

 

Isto só pode significar, na prática, que se criam assim condições objectivas para que as coisas corram mal, desde logo aumentando os riscos de não-qualidade e, consequentemente, do surgimento de anomalias na construção e de acidentes nas obras.

 

No caso da queda desta grua, e na ausência de causas externas evidentes (ocorrência de ventos muito fortes, uso indevido da grua com cargas excessivas, por exemplo), é natural esperar que se venha a concluir pela existência de falha ou falhas do equipamento, e essas, a confirmarem-se, estarão quase de certeza relacionadas com problemas de envelhecimento e de falta de manutenção.

 

Este acidente, como outros, não deveria fazer reflectir sobre a justeza das decisões políticas impostas e tomadas em Portugal e que ditaram a destruição do sector da construção no País?

 

João Appleton, é engenheiro civil (IST), especialista e investigador coordenador pelo LNEC, conselheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes (aposentado) e sócio da A2P- Estudos e Projectos.

TAGS: Opinião , João Appleton , reabilitação , construção
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