Opinião de Manuela Synek: «Porfírio Pardal Monteiro - Memórias de Um Arquiteto Moderno»

02.06.2015

Está a decorrer uma homenagem ao arquiteto de Lisboa, Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), através de uma retrospetiva sob a curadoria de Ana Tostões e João Pardal Monteiro (sobrinho-neto do arquiteto), no âmbito da Lisbon Week, na Biblioteca Nacional, sendo um dos últimos projetos de sua autoria e concluído pelo sobrinho António Pardal Monteiro.

 

Este espaço expositivo ocupou uma sala, nunca antes aberta ao público, tornando-se o centro desta figura através da revelação de um número extenso de obras emblemáticas da cidade.

 

Foi um segundo momento, após setenta e sete anos de uma primeira exposição em 1938 no IST, onde se assinalava os seus vinte anos de carreira profissional. Uma das primeiras obras foi a Estação do Cais do Sodré e diz-se que foi na sua inauguração (meados dos anos 20) que o Engº. Duarte Pacheco o conheceu, ambos jovens.

 

Apesar da relação estreita de profunda amizade entre ambos ela esfriou-se mais tarde por ter havido um desentendimento que se prolongou até ao desaparecimento do Engº (1943). E, só a partir daí, é que o Arqto. retoma e dá continuidade ao impulso de grandes projetos de obras públicas. Constava-se que o Engº gostava de rabiscar nos seus trabalhos e cansado, Pardal Monteiro começou a levar-lhe então os desenhos emoldurados.

 

Recebeu a primeira Comissão de Duarte Pacheco com o projeto das instalações do IST. No início da sua carreira já se começava a observar os traços estilísticos com os princípios do Modernismo arquitetónico que viriam mais tarde a marcar profundamente as suas construções; tendo sido portanto capaz de pegar no fio da tradição para inovar.

 

Em diversas ocasiões foi crucial a relação entre a arquitetura e as disciplinas artísticas, tendo colaborado com figuras de renome com especial incidência Almada Negreiros e Leopoldo de Almeida. Teve também um papel determinante no campo do urbanismo no Séc. XX, tendo dado os primeiros passos na conceção de ideias e foi um mentor da internacionalização da arquitetura portuguesa.

 

A montagem da exposição na Biblioteca teve uma excelente metodologia com a planificação definida por grupos de obras de naturezas diferentes que o arquiteto realizou ao longo do seu percurso. À entrada surge um painel com o mapeamento cronológico da enumeração das construções. De acordo com a monumentalidade da área expositiva num espírito de grandiosidade, encontram-se fotografias de imagens da época, desenhos/esboços de edifícios uns mais fiéis à realidade, outros vivem num plano mais imaginário.

 

Esta panóplia é acompanhada de um vídeo, num ambiente de silêncio com a projeção dos edifícios. Pode-se também observar vitrinas com os seus objetos pessoais; cartas manuscritas; caderninhos de viagem; amostras do mobiliário que tornaram o espaço mais vivo e enriquecido de símbolos fortes da sua presença de um homem que gostava sobretudo de viver. A exposição levou-nos e conduziu-nos assim numa viagem à descoberta em simultâneo da vida do homem e do arquiteto.

 

Manuela Synek é Historiadora e Crítica de Arte. A autora escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 

TAGS: opinião Manuela Synek , Porfírio Pardal Monteiro
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