Opinião de Mário Alves: «O ricochete elétrico»

17.11.2014

Em 1865 William Stanley Jevons escreveu um livro (The Coal Question) em que observava que o novo design do James Watt para a máquina a vapor (muito mais eficiente que os anteriores) fez com que o consumo de carvão aumentasse e não diminuísse como seria de esperar. Esta observação algo surpreendente ficou conhecida como o “Paradoxo de Jevons”. De facto pouco tem de surpreendente e qualquer estudante de economia do primeiro ano consegue explicar facilmente: o uso de uma máquina mais eficiente (menos matéria-prima para produzir igual quantidade de “trabalho”) faz com que o preço por unidade de produção baixe, aumentando assim o consumo da matéria-prima. Hoje em dia o fenómeno dá por vários nomes sendo talvez o mais conhecido como o “efeito de ricochete” (“rebound effect” em Inglês). Um exemplo simples: as lâmpadas mais eficientes acabam por ser usadas 24h em jardins e escadas, porque o consumidor sabe que consumem menos – acabando finalmente, e em certos casos, por consumir o mesmo ou mesmo mais que a tecnologia anterior.

 

Hoje em dia teríamos que ser muito naïves para não ter em conta o “efeito de ricochete” ao avaliar os efeitos da eficiência energética mas também noutras questões de políticas públicas. Ciclistas com capacete circulam mais rápido e por isso mesmo têm tendência a cair mais. Condutores de veículos equipados com ABS têm tendência a ter uma condução mais agressiva e arriscar um pouco mais. E eventualmente condutores de veículos elétricos poderão conduzir mais quilómetros se o preço da eletricidade para mover um veículo elétrico por quilómetro for acentuadamente mais baixo que se o veículo usar combustíveis fósseis.

 

Felizmente para quem trabalha em eficiência energética o “efeito de ricochete” geralmente não consome toda a poupança obtida. Isto é, mesmo que a eficiência na prática não seja exatamente igual à eficiência teórica, que não conta com as mudanças de hábito do consumidor, geralmente faz sentido conseguir eficiência tecnológica. Mesmo que haja um aumento nas horas de uso das lâmpadas económicas, poderá não ser um aumento suficiente para anular os ganhos de eficiência desta nova tecnologia. Fica no entanto uma questão incomoda: será que com o dinheiro poupado o consumidor irá consumir um produto ou serviço com consequências ambientais ainda piores?

 

O problema com os automóveis é um pouco diferente. Imaginemos que, porque os preços por quilómetro da deslocação de um carro elétrico são muito mais baixos que os veículos tradicionais, a aquisição de um veículo elétrico provoca em média um pequeno aumento de 10-15% dos quilómetros percorridos. Mesmo que este pequeno aumento de quilometragem não anule totalmente a poupança energética (e possivelmente as emissões de Gases de Efeito de Estufa que dependem muito das fontes de energia do país), ele terá enormes efeitos negativos no ambiente e vivência das nossas cidades – mais acidentes rodoviários, mais congestionamentos, mais automóveis em zonas urbanas sensíveis, etc. Passaremos a ter um congestionamento “limpo”. Cidades cheias de carros silenciosos a dificultar a vida aos peões, bicicletas e transportes públicos.

 

Mas há obviamente soluções para atenuar, ou mesmo anular o ”Paradoxo de Jevons” no consumo da mobilidade. No fundo será necessário fazer uma alteração radical na forma como se cobra impostos sobre a circulação do Transporte Motorizado. Poderemos passar de uma situação em que os automóveis se movem consumindo um combustível com uma elevada componente de imposto (Imposto Sobre Produtos Petrolíferos) para o gradual aumento do parque automóvel elétrico. Terá que haver necessariamente uma reformulação da fiscalidade fazendo com que o que se paga está mais relacionado com o espaço e o tempo que o condutor está a consumir. Isto é, um centro histórico bem servido de transportes públicos à hora de ponta terá uma tarifa horária ou quilométrica substancialmente superior ao que se pagará numa estrada rural mal servida de transportes públicos. A tecnologia existe e poderá ser a única forma de alterarmos radicalmente a nossa relação com o automóvel.

 

Mário Alves é especialista em Transportes e Mobilidade. O autor escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Mário Alves , mobilidade
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