Opinião de Miguel Pimentel:"Intermodalidade, um passo mais para a sustentabilidade ambiental?"

02.12.2015

Depois de 3 comentários onde abordei questões relacionados com o atual estado do planeamento (?) da mobilidade e transportes em Portugal, da forma urbana e a acessibilidade, do espaço público como catalisador de mudanças mais intermodais, estes podem, de certa forma culminar na temática de hoje: A intermodalidade. Este comentário precede também a Conference of Parties (COP) e o Sustainable Innovation Forum em Paris que vai debater formas de conseguir por novamente na agenda politicas as questões ambientais, depois do Rio (1992), Quioto (1997), Haia e Bona (2000 e 2001), Montreal (2005), Bali (2007), Copenhaga (2009), Cancun (2010), Durban (2011) e finalmente Paris (2015).

 

Na perspetiva da mobilidade, se verificarmos as datas do COP já realizadas (desde 1992 a 2015) e se percebemos as alterações (evolução?) da mobilidade nas últimas duas décadas, observamos que as alterações de paradigmas de motivos de deslocação assentes nos movimentos pendulares (casa-trabalho-casa), para uma lógica de motivos de deslocação mais diversa e em maior número, aumentando assim os movimentos um cidadão comum, é hoje uma realidade. A mobilidade urbana é portanto cada vez menos rotineira, mesmo se as deslocações pendulares continuem a ter um papel estruturante. A população não utilizam necessariamente sempre os mesmos modos de transporte para as mesmas deslocações. Desejam, netas matéria como em qualquer outra, dispor de escolha: hoje vou de carro porque vou também fazer compras; amanhã posso ponderar ir de transporte público ou de bicicleta…

 

Nos seus percursos os cidadãos atravessam fragmentos de cidade heterogéneos onde o desempenho dos modos de transporte são desiguais: em zonas pouco densas os meios individuais são indispensáveis, enquanto nas zonas densas os transportes coletivos são mais eficazes, tornando-se assim verdadeiros cidadãos multimodais. O desenvolvimento dos usos de transportes coletivos nas grandes cidades depende assim largamente da qualidade da intermodalidade, porque uma parte importante das zonas de habitação e de emprego é dificilmente acessível “até ao fim” graças aos transportes coletivos. Estes problemas do “porta a porta” ou do “primeiro” e do “último” quilómetro coloca-se também por outro lado na zona mais densa, quando as malhas das redes de transportes não são fechadas. Não pode ser resolvido senão pelos transportes individuais.

 

A intermodalidade é também feita de lugares (estacionamentos, estações de transporte coletivo), de materiais (a bicicleta que se dobra no porta-bagagens do carro), de organização e informação sobre os transportes coletivos, de incentivos e de coordenação dos sistemas tarifários e de portagens. As suas qualidades dependem de elementos diversos, mas sobretudo da facilidade e da brevidade da passagem de um meio de transportes para o outro ambientalmente (mais) sustentável.

 

Contudo os locais intermodais também podem acolher equipamentos e serviços uteis, transformando os espaços e de simples nós multimodais para lugares multimodais. Significa isto também que deverá existir uma maior preocupação com os espaços envolventes de forma a conseguirmos atrair mais gente para os modos de transporte coletivo. Só assim conseguiremos passar do paradigma do cidadão motorizado (transporte individual) para o cidadão multimodal (que usa vários modos) para satisfazer os exigentes tempos que se aproximam da redução da pegada ecológica das nossas deslocações. A COP de Paris ajudará? Esperemos para ver.  

 

Miguel Pimentel é consultor de mobilidade, Eng. Civil, Mestre em Planeamento de Transportes e Doutorando em Planeamento e Ordenamento do Território na FEUP (CITTA-Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente)

TAGS: opinião , Miguel Pimentel , intermodalidade , sustentabilidade ambiental
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