Opinião Filipa Montalvo:"Espaço de jogo e de recreio dos 0 aos 100 anos"

07.12.2015

Ultimamente tenho sido frequentemente questionada sobre o motivo pelo qual não é permitido aos adultos, usufruírem dos Espaços de Jogo e de Recreio tal como as crianças. “Porque é que existem Parques Infantis, mas não existem parques para adultos andarem de escorrega, baloiço ou saltarem pelos ares? Fazem tanta falta!” Eu poria a questão de outra forma, por me parecer igualmente discriminatório existirem zonas distintas para as diferentes faixas etárias e não ser permitido aos adultos brincarem, “Porque não podemos, nós adultos, brincar com as crianças nos equipamentos concebidos para o efeito?”

 

A verdade é que, genericamente estes espaços nem deveriam ser designados como “Parques infantis”, mas, usar a nomenclatura correcta de Espaços de Jogo e Recreio, e sim, serem abrangentes a adultos.

Durante muitíssimo tempo, foi imperativo que só os infantes pudessem usufruir destes espaços, e onde o papel dos adultos se restringia ao de vigilante. Por obrigatoriedade da legislação, ainda em vigor [por pouco tempo], os equipamentos são munidos de placas identificativas, indicando a idade e altura máxima e mínima dos utilizadores. Parece-me algo discriminatório para qualquer faixa etária, servindo pouco o interesse quer de adultos quer de crianças ou jovens. No caso das crianças/jovens o que deveria ser aferido deveria ser a sua competência e destreza, uma vez que a idade não tem real influência na sua segurança. Os direitos das crianças afirma, que estas o são até aos 18 anos de idade, no entanto estes parques são por regra previstos para crianças até aos 12, como se a esta idade deixassem de o ser.

 

Os Espaços de Jogo e de Recreio, não só devem servir os adultos, como também estão preparados para isso. Os testes de conformidade, carga e segurança, além da qualidade que deve ser intrínseca ao equipamento, assegura que o uso por adultos, não adultera ou compromete a vida útil de um equipamento, nem acelera a sua degradação. Há até quem defenda, que existindo espaço de encontro, estadia, convívio, e refugio, para usufruto de crianças, jovens e adultos, há também um maior cuidado em manter um espaço que é de todos, reduzindo o vandalismo e bullying, promovendo a interacção.

 

Apelando ao espirito crítico, se os equipamentos devem ser acessíveis a adultos por questões de segurança, por exemplo, no caso de necessidade de resgate de uma criança que caiu e se magoou, ou outro, porque não podem servir também os seus próprios interesses e promover a interacção familiar? Não é, senão promover a actividade familiar sem que ninguém seja excluído. Até cidadãos seniores gostam de se divertir e ir além de se sentarem pacificamente em bancos de jardim, a ler, ou a observar as crianças a baloiçar, escorregar e genericamente a passarem um bom momento a divertirem-se. Há a necessidade de serem fisicamente activos e socializarem, e, há que quebrar o mito de que uma pessoa mais idosa só se satisfaz observando os mais pequenos. Temos nestes espaços uma boa oportunidade para criar coesão familiar e intergeracional, abrindo mentes mais fechadas. Brincar é um óptimo factor de ligação para adultos, idosos e crianças. Em complemento ao benefício cognitivo e físico, pode reduzir o stress em adultos mas também em crianças.

 

Felizmente, entrará definitivamente em vigor a meio de Janeiro de 2016, o Decreto-Lei n.º 203/2015 de 17 de Setembro, que assegura que Espaços de Jogo e Recreio, estarão acessíveis a todos. Quanto mais variada for a oferta, mais inclusivos os espaços, ao permitirem vários graus de destreza e actividade física para todos. Permite que os adultos, auxiliem crianças com maior vulnerabilidade física, e, sendo que os mais pequenos aprendem muito pelo exemplo dado, creio que ajudará bastante no seu desenvolvimento e na diminuição, como referiu o Professor Carlos Neto, de “analfabetos do corpo”. A presença de adultos é importante e desejável.

 

Julgo que o fundamental para que estas áreas sejam dinâmicas e funcionem bem, é que exista uma boa concepção e organização funcional. Olhar para o espaço como um todo e avaliar assim todos os potenciais riscos.

O novo Decreto-Lei apresenta-se assim, como uma grande mais-valia a todos os níveis.

Há projectistas que se já se haviam rebelado [e bem] contra este processo discriminatório, indicando nos painéis informativos, que os parques se destinam a utentes dos zero aos cem anos de idade e até uma altura máxima de dois metros de altura. Agora podemos todos, usar legitimamente a teoria e aplicabilidade em projectos, da máxima que crianças/jovens, pais e avós podem brincar em simultâneo sem violar a lei.

 

Filipa Montalvo é arquitecta paisagista e responsável do Departamento de Orçamentação, Projecto e Departamento Comercial na Vedap

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