Opinião Filipa Montalvo:"Mobiliário urbano convertível em abrigo para quem mora na rua"

14.12.2015

Numa época em que tanto se fala de solidariedade, e em que as temperaturas que se fazem sentir nos lembram, mais uma vez, de como deve ser difícil viver na rua, decidi abordar um tema, que julgo ser algo controverso. Mobiliário urbano que se pode converter em refúgio para os sem-abrigo.

Calculando, não ter sido a única a pensar em como se poderiam converter peças básicas e fundamentais na estrutura urbana, a favor do bem-estar desta comunidade desfavorecida, descobri já terem existido esforços nesse sentido.

Enquanto há, um pouco por todo o mundo, entidades que criam métodos que inibem que sem-abrigo, possam usar logradouros públicos ou pequenos recantos para passar a noite, recorrendo por exemplo a espigões colocados no pavimento, existem também entidades que procuram minimizar o desconforto dos que menos têm. 

 

Há algum tempo, uma associação sem fins lucrativos [RainCity Housing] em colaboração com uma empresa publicitária [Spring Advertising], em Vancouver, Canadá, decidiram, investir o seu tempo e recursos financeiros a reconverter sete bancos de jardim, na cidade, em magníficos cartazes que escondiam mais do que boas mensagens. Escondiam abrigo.

Estes cartazes, na sua forma original, ocupando a extensão das costas dos bancos, apresentavam a mensagem “Encontre abrigo aqui”. Ao inverter o encosto adicional, acoplado às costas do banco, este transformava-se num espaço coberto para passar a noite. Outros, dos bancos, ficavam iluminados de noite com uma mensagem especial. Durante o dia apresentavam a mensagem “isto é um banco” e de noite a mensagem ”Isto é um quarto”.

 

Embora estes cartazes criativos, já tenham sido há muito, removidos das ruas de Vancouver, o projecto tem atraindo a atenção internacional na sequência das medidas tomadas em Londres que parecem atacar as pessoas sem-abrigo, em vez de o problema global que causa este flagelo.

Daí, a referência à controvérsia, que este tipo de medidas pode originar. Se por um lado há quem seja apologista da solidariedade social, por outro há quem refira, que não se garantirá a segurança ou bom ambiente das zonas, que pudessem eventualmente receber estruturas semelhantes.

Por cá, em 2012, duas Arquitectas, sensibilizadas pela forma como muitos sem-abrigo vivem, e achando que podiam fazer mais por estas pessoas, decidiram criar uma solução. Não definitiva, mas chamemos-lhe, uma táctica de minimização de danos e de desconforto, procurando uma solução temporária, enquanto se encontram tácticas mais prementes de integração destas pessoas na sociedade, possibilitando-lhes abandonar a rua. Criaram um desenho para abrigos de cortiça sustentáveis, modulares, auto-suficientes [dispondo de um depósito de água e painéis solares], ecológicos e facilmente integráveis na malha urbana. Estes abrigos, foram concebidos para serem portáteis, extensíveis e, como definido pelas criadoras, em sistema de caixa de fósforos.

 

Foram criados vários tamanhos. Os S e M, de fácil transporte, para estadia de uma a duas pessoas, permitiria que pudessem dormir deitadas, trabalhar ou cozinhar. Os L e XL para serem usados como espaços comuns para refeições, higiene básica e outros. 

 

"De forma a rentabilizar o possível investimento, por autarquias ou entidades privadas, estes módulos foram pensados de forma a poderem ser um instrumento publicitário, tornando-se assim financeiramente viáveis e autofinanciados."

 

Na minha opinião, nenhuma das opções referidas, é a ideal. Parece-me que o objectivo base, será mais atenuar os efeitos da pobreza e promover abrigo de desastres naturais e intempéries, através soluções que oferecem privacidade e protecção. Ideal seria conseguir tirar todos os sem-abrigo das ruas. Mas, a motivação de quem quer fazer mais e melhor, de forma a minimizar o impacto deste flagelo, fazendo a diferença principalmente na vida de quem é obrigado a viver assim, é de valorizar, estudar e fazer acontecer. Virar a cara, fazer de conta que não existe, ignorar, não nos levará a qualquer melhoria social. Parece-me válido pensar em projectos semelhantes, dignificando estas pessoas, e ensinando-lhes, durante este processo, também a pescar ao invés de lhes dar o peixe. Aos poucos ir mudando hábitos, preconceitos e tamanha desigualdade.

 

Filipa Montalvo é arquitecta paisagista e responsável do Departamento de Orçamentação, Projecto e Departamento Comercial na Vedap

TAGS: opinião , Filipa Montalvo , mobiliário convertível , abrigo
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