Opinião de João Appleton: "Edifícios gaioleiros: que futuro?"

20.06.2016

Os gaioleiros são edifícios construídos entre a parte final do século XIX e as primeiras décadas do século XX que devem esta designação aos seus construtores, assim pejorativamente conhecidos, pela muito baixa qualidade dos edifícios que erigiam.

 

De facto, quando se aplica uma classificação única a todas as edificações construídas neste espaço temporal, está-se a fazer uma generalização abusiva e perigosa. Explico porquê: no período antes referido coexistiam, nos mesmos locais, bons e maus empreiteiros, como sempre aconteceu e, se é verdade que era comum a escassez de materiais e, ainda mais, de materiais de boa qualidade, a verdade é quem já sabia construir continuou a construir bem e escassez não significa inexistência de materiais e mão-de-obra com a necessária qualificação.

 

O que sucedeu então para surgirem os gaioleiros, reproduzindo-se como coelhos ou cogumelos?
O que aconteceu então foi algo que até já vimos voltar a acontecer durante o recente "boom" da construção de edifícios: em determinados períodos e em certas condições, as cidades têm necessidade de se expandir e o que sucedeu no tempo dos gaioleiros foi a fortíssima migração interna para o litoral, criando uma enorme pressão fundiária e imobiliária, a que as cidades eleitas responderam com a urbanização e construção de grandes zonas de expansão.

 

Estes fenómenos originam outros: perante a oportunidade e a necessidade de construir mais e mais, vêm construtores de fora atraídos pelo negócio e "nascem" construtores de "aviário", que vislumbram na construção a galinha dos ovos de ouro.

 

A ignorância, a inexperiência, aliam-se à ganância de quem é ou se julga ininputável, e daí para a construção deficiente é um pequeno passo; e neste caso, como em tantos outros, paga o justo pelo pecador, mete-se tudo no mesmo saco e, de repente, todos os construtores que vieram, por exemplo, da região de Tomar para Lisboa, são patos-bravos sem direito a recurso.

 

Injustiça tremenda: se, retomando o exemplo de Lisboa que interessa muito a este tema atendendo à sua macrocefalia face ao restante território, olharmos com atenção alguma da melhor construção então produzida na capital, designadamente a que mereceu a atribuição do Prémio Valmor, veremos nessas obras o dedo dos impropriamente chamados gaioleiros e patos-bravos.

 

Isto quer dizer que a generalização do título pejorativo é injusta e perigosa: cada objecto construído tem que ser olhado de per si, sem preconceitos e, se é verdade que, apesar de sucessivas demolições integrais de edifícios deste período crítico, ainda existem muitos edifícios deficientes, provavelmente condenados ao camartelo, também é verdade que subsistem muitas jóias arquitectónicas cuja preservação é crucial.

 

Não pode esquecer-se que o período dos gaioleiros é especialmente rico em variações do projecto arquitectónico e do recurso às artes decorativas, directa ou indirectamente ligadas à arquitectura.

 

Em poucas décadas, as cidades e os edifícios conheceram os movimentos das artes e ofícios, o período da Arte Nova, o estilo Deco e o modernismo e, na mesma época vieram para ficar as ideias higienistas do final de oitocentos que tantas alterações impuseram na concepção e no desenho dos edifícios.

 

Os edifícios construídos nesta fase, mesmo com as suas debilidades, representam um património valiosíssimo que não pode ser perdido, pelo contrário deve ser acarinhado, protegido e preservado.

 

O que se tem passado com muito do edificado, sacrificado, demolido, em nome de preconceitos filhos da ignorância, é um erro que não pode prosseguir: tal como sucede com edifícios de outras épocas, como os pombalinos, é essencial que os edifícios do período dos gaioleiros sejam bem conhecidos e avaliados tecnicamente, para que as decisões sobre se têm e qual é o seu futuro sejam tomadas com base em critérios racionais e objectivos.

 

É necessário perceber o mérito de muitos destes edifícios e compreender até que ponto eles são indispensáveis para ajudarem a contar, completa, a história das cidades.

 

João Appleton, é engenheiro civil (IST), especialista e investigador coordenador pelo LNEC, conselheiro do Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes (aposentado) e sócio da A2P- Estudos e Projectos.

TAGS: Opinião , João Appleton , contrução , reabilitação , edifícios gaioleiros
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