Opinião Manuela Synek: «Cottinelli Telmo - Arquitectos são poetas também»

29.04.2015

Decorreu recentemente uma primeira mostra em homenagem a título simbólico à obra e figura deste arquiteto (1897-1948), no Padrão dos Descobrimentos, monumento por si construído em parceria com o escultor Leopoldo de Almeida, local oportunamente escolhido dado que Cottinelli foi justamente um dos autores do projeto.

 

Porém, este arquiteto não chegou a assistir à construção definitiva do Padrão, vinte anos depois, inaugurado em 1960, no âmbito das Comemorações do V Centenário da morte do Infante D. Henrique. Não era a favor da construção definitiva da obra por não fazer sentido perpetuar uma estrutura temporária em estafe que tinha sido exposta na Exposição do Mundo Português, atitude plenamente moderna para a época.

 

Foi uma figura pertencente a um período histórico em que surgiu uma geração de súmula importância de arquitetos portugueses, cada um com o seu estilo bem definido e característico. Cottinelli é reconhecido como um artista dotado de um talento invulgar, por se ter debruçado em diferentes expressões artísticas, desde o desenho ao cinema e foi bem sucedido em todas elas e até pioneiro nalgumas. É assim difícil de o classificar numa única vertente, por exercer um particular fascínio nas diferentes áreas de trabalho. 

 

No campo da arquitetura, abordou diversas tendências, indo do estilo modernista, passando por referências tradicionais e culminando na arquitetura do Estado Novo. A mostra esteve bem documentada e teve origem no seu espólio que se encontra no SIPA/IHRU no Forte de Sacavém, reunindo peças pouco divulgadas e trabalhos inéditos, constituindo uma viagem pelas múltiplas facetas envolvendo uma síntese do seu processo criativo e da sua personalidade complexa.

 

Ele reunia em si uma combinação invulgar entre a arquitetura em comunhão com as outras artes, nunca abandonou uma inquietação que possuía, acompanhado de uma especial revelação da lucidez e um espírito crítico, sempre na busca de novas experiências de uma imaginação imparável transbordando de energia. Era de um entusiasmo contagiante em tudo o que se envovia.

 

Foi editado um desdobrável bem concebido reunindo as diferentes facetas do Arquiteto/Artista através de sínteses de textos em sete partes. Entretanto foi também projetado no auditório do Padrão um Documentário, «A Construção de um Símbolo» sobre a história dos construtores que rodeavam a edificação do Monumento, com argumento e realização de Edgar Medina.

 

A intenção do Comissário Científico desta exposição, o arquitecto João Paulo Martins, consiste na realização de uma ampla retrospetiva em 2017 em comemoração dos 120 anos do nascimento do arquitecto Cottinelli Telmo com vista a revelar os seus projetos de um percurso curto de vida, mas detentor de uma obra intensa ao longo de vinte e cinco anos de atividade. Aguardemos com expetativa pela concretização desse evento à semelhança do que tem sido feito a outros arquitetos da mesma geração.      

 

Manuela Synek é Historiadora e Crítica de Arte. A autora escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 

TAGS: opinião , Manuela Synek , Cottinelli Telmo , Padrão dos Descobrimentos
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