Opinião Manuela Synek: «Memórias do SAAL revisitado numa cultura de participação»

18.02.2015

Em torno do projeto (Serviço Ambulatório de Apoio Local) foi realizado um conjunto de iniciativas, uma Exposição em Serralves e um Colóquio em Coimbra. O evento teve a sua origem num curto período conturbado historicamente, entre 1974-76. Trata-se de um momento importante sobre o olhar as cidades como processo ativo do direito de cidadania.

 

Na mostra estiveram expostos dez projetos dos arquitetos: Siza Vieira; F. Távora; P. Ramalho; Fernandez; Manuel Vicente; Hestnes Ferreira; Paradela/L. F. Gravato; Artur Rosa; Gonçalo Byrne e Veloso das cidades Porto, Lisboa, Setúbal e Lagos que ocupam um lugar de destaque para as construções no Porto.

 

Ao curador Delfim Sardo interessou-lhe perceber qual era a motivação desses trabalhos e até onde foram desenvolvidos. Segundo ele, não existiu um SAAL, mas vários, tantos quantas as experiências no terreno, não se tratando portanto de encontrar uma unidade, mas sim de relevar a sua diversidade num cruzamento com a prática artística contemporânea.

 

O programa foi criado pelo Arqto. Nuno Portas no tempo em que exerceu as funções de Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo. «Julgo que a experiência funcionou e resistiu. Dela se puderam tirar lições importantes, o que não quer dizer que todas as soluções fossem boas», explica o Arqto.

 

A designação do movimento foi também ele que o inventou. «Surgiu o SAAL com esse nome estranho. Soava a sal e podia ser muita coisa…Não queria que aparecesse o termo arquiteto». Caracteriza-se por procurar resolver problemas habitacionais de populações muito carenciadas numa estratégia orgânica e participação ativa do papel dos moradores das ditas construções, num forte diálogo aberto com os arquitetos quanto à questão da solução das suas próprias casas feita em colaboração com equipas técnicas multidisciplinares num espírito associativo.

 

Existiu assim uma triangulação bem sucedida em que envolvia a figura do arquiteto, do morador e do Estado, havendo uma vivência coletiva intensa em torno desta temática. Foi um período marcante, efémero com uma vertente prática experimental que faz parte da história da arquitetura dado que contribuiu para levantar questões que se tornaram decisivas para futuro e da consciência em termos sociais do papel do arquiteto.

 

Muitos destes projetos não chegaram a concretizar-se, tendo ficado por isso apenas no desenho como uma espécie de utopia. Alguns bairros resistiram até hoje após terem sido reabilitados, estando mesmo alguns deles «bem vivos e vividos».

 

O SAAL traduziu-se assim num movimento que se tornou numa espécie de figura mítica da arquitetura portuguesa, abrindo os horizontes para uma nova forma de fazer arquitetura num contexto do pensamento urbano sobre a cidade. A intenção foi trazer à superfície toda a sua poética.

 

Se expor arquitetura é sempre difícil, mostrar o SAAL, uma arquitetura interrompida, que em alguns casos não chegou mesmo a existir, torna-se ainda uma tarefa mais complexa.    

 

Manuela Synek é Historiadora e Crítica de Arte. A autora escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 

TAGS: Opinião , Manuela Synek
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