Manuel de Carvalho e Sousa: “Ponte de Lima vai acolher experiências dos cinco continentes”

Comissário de Portugal na World Urban Parks fala do congresso mundial que decorre de 26 a 30 de Maio

04.05.2015

Ponte de Lima vai ser a capital mundial dos espaços verdes de 26 a 30 de Maio. A vila recebe o Congresso World Urban Parks (WUP) 2015. Em entrevista ao Jornal Arquitecturas, o comissário de Portugal na WUP, arquitecto paisagista Manuel de Carvalho e Sousa, fala sobre este evento internacional que trará a Portugal “experiências dos cinco continentes” e abordará a “concepção, manutenção e promoção inteligente dos espaços verdes”. Visite aqui a página do congresso, que se realiza em paralelo com o 9º Congresso Ibero-Americano de Parques e Jardins Públicos.

 

O que representa para Ponte de Lima receber um evento com esta dimensão?

Ponte de Lima fez há mais de uma década uma aposta na valorização do seu património paisagístico, com a criação da Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e de S. Pedro de Arcos, com a construção de jardins temáticos e com a realização de diversos eventos na área dos espaços verdes, de que é exemplo o Festival Internacional de Jardins. Tem tido o reconhecimento público desse esforço, não só pelo público que aflui a esta vila para ver e usufruir os seus espaços verdes, mas também com o reconhecimento pelos prémios internacionais que foi recebendo nesta área.

 

A realização de um grande evento mundial, organizado por duas grandes entidades, a Associação Espanhola de Parques e Jardins Públicos e a World Urban Parks, colocam em Ponte de Lima este ano a marca da Capital Mundial dos Parques Urbanos e dos Jardins Públicos. Este evento é naturalmente muito importante para a vila, relevante para a Região Norte e prestigiante para Portugal e por essa razão recebeu o Alto Patrocínio do Presidente da República, que integra a Comissão de Honra.

 

Como foi possível uma realização desta natureza em Portugal?

O município de Ponte de Lima aceitou o desafio de se candidatar à realização do congresso da World Urban Parks e apresentou uma candidatura em Turim, a  qual acabou por ser vencedora na votação dos Comissários Mundiais na Suíça, em Basileia. Depois da vitória da nossa candidatura, foi convidada a Associação Espanhola de Parques e Jardins Públicos à realização em conjunto com seu Congresso Ibero-Americano, o 9º, que se realiza de dois em dois anos.

 

A World Urban Parks é a organização que vai ter em Ponte de Lima a sua primeira apresentação pública, com uma nova filosofia, uma nova estratégia, por transformação da International Federation of Parks and Recretion Administration, que foi criada em Londres na década de 50 do século passado. Esta organização tem uma cobertura mundial, mas pouca expressão em África e nos países Ibero-Americanos, pelo que se pretendeu alargar o seu âmbito de actuação envolvendo outros países, pela conjugação estratégica dos dois eventos.

 

África terá uma forte expressão em termos de comunicações de países como África do Sul, Guiné-Bissau, Marrocos e Moçambique. Guiné-Bissau será o país de destaque, com a Conferência de Abertura a ser realizada pelo Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau, Engº. Domingos Simões Pereira, que apresentará o projecto de Cidades Verdes que pretende implementar no país.

 

Que experiências vai Ponte de Lima deixar no evento? Algum caso de estudo ou obra em particular?

Ponte de Lima será palco, no dia 25 de Maio, da reunião da World Parks Academy, que atribui os Certificados Profissionais de Parques e os Certificados Internacionais de Profissionais de Parques, por reconhecimento de competências e formação, em parceria com o Instituto Eppley da Universidade de Indiana, dos Estados Unidos. Nesse mesmo dia vai ser discutida a Carta de Princípios Universais dos Espaços Verdes, a Carta de Ponte de Lima na reunião dos Comissários Mundiais da World Urban Parks.

 

Vão ser apresentados novos modelos de urbanismo de Marrocos e dos Emiratos Árabes Unidos, novos modelos de gestão de parques urbanos, novas metodologias de trabalho, novas abordagens de promoção de espaços verdes e experiências distintas de manutenção de espaços verdes de regiões distantes como Japão, Nova Zelândia, Canadá e Brasil.

 

Será também um palco de intercâmbio de experiências, de conhecimentos e de contactos pessoais, facilitado pelas diversas visitas técnicas, quer durante o congresso, como no pré e pós-congresso, e por toda a parte social a ela associada.

 

Que novidades conta Ponte de Lima ter neste evento? Que inspirações tenciona receber de fora?

Ponte de Lima vai acolher experiências dos cinco continentes, visões de culturas diferentes, experiências de espaços verdes de variados climas, conhecimentos de diferentes formas de usufruir os espaços verdes e de novas tecnologias que estão a ser usadas.

 

Haverá uma presença enriquecedora asiática da China, Japão, Singapura, Malásia, uma forte expressão da Oceania com a Nova Zelândia e Austrália, uma presença inovadora de países africanos como é o caso da Guiné-Bissau e Moçambique, uma presença em força das Américas do Norte e do Sul, com a Colômbia, Brasil, Estados Unidos e Canadá e naturalmente uma presença significativa da Europa.

 

Numa altura em que se fala de sustentabilidade hídrica e sendo a água um bem escasso como se poderão continuar a projectar espaços verdes nas vilas e cidades, particularmente em Portugal, que tal como os restantes países do sul da Europa enfrentará secas severas no futuro? Como se compatibilizam sustentabilidade no uso de recursos e espaços verdes?

Este congresso aborda a inteligência nos espaços verdes e a gestão inteligente será aquela que melhor souber gerir os recursos naturais, que melhor se conseguir adaptar às alterações climáticas, que contribua para a absorção do dióxido de carbono, que ajude a atenuar o efeito das ilhas de calor em que se transformaram as nossas cidades e que contribua para a valorização do espaço público e o bem-estar da população.

 

O congresso aborda as temáticas da concepção inteligente, a manutenção inteligente e a promoção inteligente. Uma boa manutenção só é possível se o espaço verde tiver sido bem concebido tendo em conta  a sustentabilidade ambiental, social e económica.

 

A gestão da água é cada vez mais um dos aspectos limitantes na expansão das áreas verdes urbanas, se não colocarmos sistemas inteligentes de rega, se não escolhermos o coberto vegetal adaptado ao clima e se não utilizarmos fontes alternativas de fornecimento de água não potável. Estas fontes alternativas serão diversas, como a água das estações de tratamento de águas residuais ou ainda de outras águas provenientes de outros usos, que sejam compatíveis com a rega de plantas ornamentais e preservação da qualidade do solo.

 

Que papel está reservado aos arquitectos paisagistas num panorama de contenção económica e ambiental? Têm a sua criatividade 'condicionada'?

Com a exigência cada vez maior dos espaços verdes urbanos, há cada vez menos espaço para o amadorismo e é exigido conhecimento de profissionais nas áreas de intervenção. Portugal tem hoje um grande número de profissionais, bem formados por uma academia cada vez mais exigente que poderão contribuir de uma forma decisiva para a melhoria da imagem urbana, para a melhoria das condições de vida da população e para o aumento da atractividade turística das nossas aldeias, vilas e cidades.

 

O arquitecto paisagista assume-se como um elemento fundamental em qualquer equipa de projecto em que os espaços exteriores estejam contemplados, nos planos de planeamento urbano e nos planos de ordenamento do território. Essa participação torna-se fundamental por questões de contenção económica e ambiental, pois há que gerir melhor os poucos recursos disponíveis e há cada vez menos espaço para as opções erradas, pelo custo que estas acarretam.

 

Ana Santiago

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